A primeira vez que a Namíbia chamou minha atenção foi por ser o ponto de partida da travessia Atlântica do navegador Amyr Klink de sua aventura remando um caiaque da costa Africana até Parati, o seu porto seguro. Na minha viagem inaugural ao sul da África, em que percorri o delta do Okavango na Bottswana, as corredeiras do Zambezi no Zimbabwe e fiz um safári de canoa na Zambia, não inclui a Namíbia por imaginar que o país fosse apenas um grande deserto. De fato, seus 2.000km de costa é composto pelo inóspito Namib Desert, que garantiu o desinteresse das potencias Européias até o final do séc. XIX, quando virou colônia Alemã. Após a primeira Guerra Mundial passa ao controle da África do Sul, que havia lutado ao lado dos aliados, que mantêm o controle do território rico em diamantes até sua independência em 1990. Esta jovem nação de apenas 1,8 milhões de habitantes é rica, também, em urânio e zinco. Em minha mais recente viagem ao sul do continente africano a Namíbia foi a “highlight” do itinerário que incluiu os pequenos reinos do Lesotho e Suazilândia, além da Costa Moçambicana. A Namíbia é realmente árida desde sua fronteira sul até a terra do povo Himba no extremo norte na divisa com Angola.
A primeira noite na Namíbia foi em um bangalô às margens do rio Orange, que faz a divisa com a África do Sul, com um vale verdejante do lado de lá do rio em contraste com o ocre das areias e colinas rochosas que nos acompanhariam por toda a semana seguinte.
No segundo dia nos deparamos com um cenário de grande dramaticidade onde o tempo e o vento desenhou diferentes formas no canyon Fish River cheio de movimento só com rochas e areia.
Onde há presença de chuvas, mesmo que eventuais, surge o “bush velt” – tufos de vegetação cobrindo o solo arenoso. Era esse campo de pastagens secas se perdendo no horizonte , e com algumas colinas, o visual da fazenda de gado de 8 mil há que passamos uma das noites. O nosso hospedeiro era um “Africaaner” beneficiado com a distribuição aos brancos das terras férteis do país na época da dominação Sul Africana.
A cena mais árida, onde a vegetação é tomada pelas areias do deserto, é paradoxalmente o cartão de visita do país – as dunas cor de ferrugem que compõe um mundo de ondas de areia achocolatadas em Sossusvlei no Namib-Naukluft Park. O lado cênico passa a trágico na “Skeletons Coast” que recebeu essse nome pelas embarcações naufragadas encalhadas na areia cujos sobreviventes das tormentas não resistiriam o inóspito deserto.
A cidade costeira de Swakopmund, com sua arquitetura alemã do início do sec. XX, além de praias é o centro de esportes radicais com sandboard e Sky dive – combinação de salto em queda livre a 3.000m de altitude seguido de pára-quedas sobre o deserto. Não sei se recomendo, mas fiz e a sensação de despencar a 220km/h foi uma das maiores cargas de adrenalina de minha vida. A Namíbia oferece também uma viagem ao passado através dos desenhos pré-históricos milenares do povo San entalhados nas rochas de Twyfelfontein. Além disso, a possibilidade de contato com uma das últimas culturas nômades e autênticas – o povo Himba – pastores de cabras que preservam suas tradições na Kaokoland. As mulheres Himba, que se vestem apenas com um saiote de pele de animal e aplicam uma pasta de gordura animal e barro sobre a pele e cabelos, são as “top models” mais requisitadas da “National Geographic”.
Este país colonizado por alemães no sec XIX, desenvolvido pelos Africaaners no sec XX, chega ao século XXI com mais de uma dezena de outros povos africanos que mantêem seu idioma e costumes – Owango, Dandara, Nami e Herero entre outros.
O renomado parque nacional Etosha expõe a vida selvagem em seu habitat natural em toda sua exuberância - elefantes “consumindo” a savana com sua ração diária de mais de 200kg de folhagens/dia, uma leoa defendendo sua caça, rebanhos de zebras se deslocando em direção a fontes de água, o elegante movimento das girafas, a figura de peso do rinoceronte e a beleza dos diferentes tipos de antílopes. Acampamos no Okaukuejo rest camp sob a estrelada noite africana, e as conversas em torno da fogueira sobre os animais “caçados” por nossas câmeras digitais, recebiam uma pitada extra de emoção com o rugir de leões ao fundo.
A viagem termina em Windhoek, a ordenada capital do país. Um agradável centro urbano, mas sem caráter próprio, onde se pode saborear uma tradicional apfelstrudel, se exercitar em uma mega academia, eventos culturais no “british council” ou compras no “shopping mall”.
Namíbia – um país de cinematográficas dunas de areia, diamantes, savanas com selvagem vida animal, diversidade étnica com o fotogênico povo himba e um legado arquitetônico germânico. Algumas facetas desse nosso vizinho do outro lado do Atlântico.