Cambará do Sul
Stela Rates, participante da oficina de Fotografia da Natureza, relata as belezas surpreendentes de Cambará do Sul.
Final de março de 2003. Cambará do Sul nos recebe com um céu de estrelas incontáveis e o Cânion da Fortaleza nos acolhe e privilegia com um amanhecer raro, sem neblina. Não há como descrever o sentimento de estar ali, no alto e na borda de uma fenda de 500 metros de profundidade, um imenso corte na carne da terra, enquanto o sol surge trazendo mais um dia. Ali, onde as suaves ondulações do planalto se transfiguram, sem aviso, em precipícios e paredões de basalto. Ali, com o sol aos poucos iluminando o vale profundo e a planície ao longe, criando um jogo de luzes e sombras nas rochas silenciosas; libertando, aqui e acolá, reflexos dourados nas gramíneas e nas flores tímidas; revelando montanhas azuladas onde a fenda se abre para o horizonte e tons lilás (serão quaresmeiras?) na verticalidade da mata densa de um verde escuro.
E ali estávamos, buscando traduzir em imagens, a um só tempo, a força e a suavidade, o mistério e a simplicidade, o aconchego e o desafio do que, para mim, sempre será a Fortaleza dos Aparados da Serra. Para o mundo, desde 1992, é um dos cânions do Parque Nacional da Serra Geral, vizinho de seu irmão mais velho, o Parque Nacional dos Aparados da Serra. Entre nós, alguns já haviam acampado por ali, nos idos anos 80, quando não havia a proteção do Parque. Creio que não por acaso. Esse amor é antigo e o seria ainda que nem um de nós lá estivesse estado antes porque se trata de uma paisagem arque típica, gravada no inconsciente coletivo de quem nasceu por aqui, no sul do mundo.
Mas, a região é ainda muito mais generosa na delicadeza de sua geografia. Oferece sem pudor o elemento fluido da água (em orvalho, espelho, córrego, corredeira, cachoeira), da bruma leve da aurora nas colinas, dos nevoeiros densos e repentinos e das nuvens enlouquecidas em um céu translúcido. Os matizes do entardecer por detrás das araucárias desenham silhuetas, incendeiam as águas e o nosso olhar. A mansidão do gado vagando pelos campos, o vôo macio dos pássaros, a plasticidade das bromélias e barbas de pau atravessadas de luz, dos moirões cobertos de líquen, das pedras como totens nas coxilhas oferecem-se sem resistência a um ângulo mais atento. O aconchego do fogo, do vinho e de uma boa conversa na noite fria completam, mas não esgotam, nossa aventura. Buscamos muito mais que imagens. Queremos partilhar nosso encantamento, nosso deleite estético e nosso profundo respeito por uma natureza que se impõe sem hostilidade e remete à reflexão sobre a real dimensão do Humano na terra.



Stela Rates
Oficina de Fotografia da Natureza
Cambará, Março, 2003.
Núcleo de Fotografia - FABICO- UFRGS.
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