Tibet
No teto do mundo
Por Alfredo Fedrizzi, publicitário que já passou pela Índia, Japão, toda Europa, Marrocos, América, Latina, México, EUA e Tibet.

A melhor maneira de viajar pelo Tibet é com um guia Lonely Planet embaixo do braço. Ali tem tudo e não deixa a gente empenhado, especialmente num país em que quase ninguém fala outra língua, a não ser o tibetano e o chinês.
A viagem pode ser feita via Johannesburgo (África do Sul), Mumbai (Índia), Bangkok (Tailândia), Kathmandu (Nepal) e daí voar a Llasa, capital do Tibet.
É preciso forte dose de aventura no sangue e estar disposto a enfrentar algumas dificuldades, como andar em jipe "off road" por estradas que às vezes terminam, porque houve um desmoronamento de pedras das montanhas. E o Tibet é só montanhas e pedras. Ou enfrentar o mau humor dos funcionários chineses no aeroporto, confiscando tudo o que possa lembrar o Dalai Lama, "em nome do Governo da República Popular da China" (eles têm um medo enorme do budismo). Mas a paisagem e a simpatia dos tibetanos compensam. A luz é fascinante, a altitude deixa a gente ofegante quase que o tempo todo, o corpo reage e sentimos uma sensação estranha. É como se estivéssemos andando em câmara lenta, com o coração bombando como se estivéssemos correndo. A comunicação é complicada. Imaginem dirigir por lugares estranhos, com um motorista que só fala tibetano.

A lembrança do que os chineses fizeram naquele países não chega a estragar a viagem. Eles invadiram o Tibet há 52 anos e hoje o consideram como parte da China. Mataram milhões de tibetanos em alguns casos invadindo com tanques de guerra templos e monastérios estupraram mulheres, incentivaram a população chinesa a migrar para lá, destruíram mais de 80% dos templos e monastérios budistas, afugentaram o Dalai Lama e seus seguidores, que hoje vivem em Mc Leod Ganj, norte da Índia. Hoje só 7% da população de Llasa, a capital, é de tibetanos. A grande maioria é de chineses. Apesar disso o Tibet fascina. O cheiro de manteiga de "yak" (um búfalo bem peludo que vive na alta montanha) incomoda um pouco, pois está presente em tudo. Desse animal as famílias nômades aproveitam tudo: a carne, os chifres, os ossos, o couro, os pêlos, o leite. É a partir dele que fazem a onipresente manteiga de yak, que usam dentro do chá e para fazer as velas, que estão nos monastérios.

Não há como não se deslumbrar diante de pequenas cidades como Xegar, Shigatse ou Gyantse. Ou de assistir a uma cerimônia no monastério de Johkang, perto de Llasa, com 550 monges budistas todos vestidos com seus matos "zen", de cor vermelho açafrão, quase bordô.
Apesar da opressão, o povo tibetano sempre tem um sorriso nos lábios, mesmo quando estão literalmente carregando pedras. Até as mulheres fazem isso. Ao contrário dos dominantes chineses, sempre carrancudos.
Por fim, o que me despertava a grande curiosidade e um dos motivos da viagem: chegar ao Everest, a Deusa-Mãe-do-Mundo, como eles a chamam. Ou Chomolungma, em língua local.

A dificuldade com a altitude incomoda um pouco. Em lugares mais altos falo em torno de 6.200m a dor de cabeça nos acompanha sempre. O ar rarefeito faz com que tenhamos que forçar o ar a entrar nos pulmões. Mas fazer um piquenique no Lago Yamdrok, o mais alto do mundo, olhando de frente para algumas das mais altas montanhas do planeta, vale qualquer sacrifício.
Viajou comigo meu primo Paulo Roberto, grande companheiro de viagem. Quem for, não esqueça de esconder bem qualquer imagem do Dalai Lama. Até mesmo capa de CDs que tenha imagem de monge, os funcionários chineses da alfândega confiscam "em nome do Governo da República Popular da China". Apesar disso, o budismo resiste lá dentro e se expande no mundo. O Tibet é indescritível.
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